Sobre o anti-petismo: Bolsonaro, Freixo, Aécio e a grande mídia
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Sobre o anti-petismo: Bolsonaro, Freixo, Aécio e a grande mídia

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Sobre o anti-petismo: Bolsonaro, Freixo, Aécio e a grande mídia

Alexander Englander

Eu tenho uma interpretação sobre a suposta “esquizofrenia eleitoral” do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo conservadora e socialista, que me parece válida para o debate. Em primeiro lugar, gostaria de destacar que não considero “esquizofrênica” a atitude dos que votaram em Marcelo Freixo e Jair Bolsonaro, ao mesmo tempo, ou em Freixo e Aécio Neves. É preciso ir além da (nossa) mentalidade de classe média universitária para entender esse fenômeno. Para quem não é militante ou não tem um compromisso ideológico com o socialismo ou o conservadorismo – a maioria das pessoas hoje em dia – os votos podem variar entre candidatos de partidos com posições políticas bem diferentes. E mesmo que torta e despolitizada, há uma racionalidade nesta votação. E é esta racionalidade que quero compreender e criticar neste artigo.

Creio que a demanda comum que une os eleitores da esquerda independente (PSOL) e da classe média moralista e autoritária (Bolsonaro e Aécio), é a demanda por ordem e ética. São demandas abstratas e morais que fundamentam as pautas concretas de Freixo e Bolsonaro por segurança pública. Até aqui, ok. Mas aí podemos nos perguntar, “esses dois deputados não defendem meios totalmente distintos para a construção da segurança pública?” Sim, Freixo defende a construção da ordem a partir da garantia dos serviços públicos e dos direitos humanos para todos, enquanto Bolsonaro é um autoritário que não se preocupa com as origens da violência urbana – em nossa injusta desigualdade social – e propaga que “bandido bom é bandido morto”. O que levaria, então, as pessoas a votarem em projetos políticos completamente distintos ao mesmo tempo?

Passamos por um momento em que vigora a postura da anti-política. O discurso dominante na sociedade brasileira atual é o que afirma que “todo político é igual”, “corrupto”, “bandido”. A política não é apenas desqualificada, mas também criminalizada. Os grandes jornais, a televisão, os pastores nas igrejas e os amigos nas rodas de conversa, todos destacam a corrupção como elemento central de nossa vida política. Políticas públicas, econômicas, projetos de lei, disputa de interesses e outros fenômenos constitutivos da prática política são esquecidos ou, quando muito, deixados em segundo plano. Este fenômeno cria um sentimento de insegurança e uma urgência nas pessoas por ordem e ética. Elas deixam de buscar a confiança em políticas públicas, programas de governo e instituições e passam a procurar por pessoas “éticas”, que as protejam “de toda essa desordem que anda à solta por aí.”

E quem são esses que são considerados “desordeiros”? No que se refere à segurança pública são os moradores das zonas pobres da cidade, que por falta de melhores oportunidades se envolveram com o crime. No que se refere à política o principal alvo da anti-política tem sido o Partido dos Trabalhadores, que vem sendo tratado pelos grandes jornais do país como o principal agente da corrupção no Brasil. O discurso hegemônico na grande mídia promove a construção de um verdadeiro “sujeito criminoso e corrupto” na política, o PT. Por outro lado, os tucanos quase não aparecem na mídia quando o assunto é corrupção, muito embora o PSDB esteja à frente do PT neste quesito, e Aécio Neves, em particular, em relação à Dilma¹.

Por que isso acontece? O discurso da anti-política não é um discurso desinteressado. Ele é divulgado pelos grandes jornais para diminuir a popularidade do partido que, mesmo restrito aos limites do atual sistema político, vem promovendo mudanças importantíssimas na sociedade brasileira (que vocês podem conferir, em um bom resumo panorâmico, aqui). Diminuir a popularidade do PT é um modo de diminuir o ritmo dessas mudanças, para melhor. Esse tratamento que os maiores jornais do país conferem ao Partido dos Trabalhadores revela a posição política conservadora desses veículos de comunicação, comprometidos com a ideologia neoliberal e os interesses da velha elite brasileira e do capitalismo financeiro.

Voltando a questão inicial. O discurso da anti-política no Brasil ganhou nos últimos tempos um teor majoritariamente anti-petista. Isso explica os votos simultâneos em Marcelo Freixo e Aécio Neves², no Rio de Janeiro e a ironia maior, um político como Aécio, com forte histórico de casos de corrupção e repressão da liberdade de expressão, ser considerado uma opção “ética” em alternativa ao governo do PT, de Dilma². A identificação entre anti-petismo e anti-política também explica Bolsonaro (dep. federal) e Marcelo Freixo (dep. estadual) terem sido os deputados mais votados no Rio de Janeiro. Ambos fazem oposição ao PT, o primeiro à direita e o segundo à esquerda. De acordo com o pensamento de parte do eleitorado brasileiro há uma identificação direta entre oposição ao PT e defesa da ética na política e da ordem na sociedade. Este pensamento anti-político acaba por igualar um socialista destemido, como Freixo³, com um dinossauro viúvo do autoritarismo da ditadura militar, que é Bolsonaro.

Por esses motivos, deve estar na agenda de quem quer um país mais igualitário, livre e ético, a desconstrução do discurso da anti-política, que identifica a corrupção diretamente com o Partido dos Trabalhadores, em vez de abordá-la de modo mais sincero, como um problema mais amplo da sociedade brasileira. Essa posição não é petista ou governista, é apenas honesta, pois tal discurso não prejudica apenas o PT, mas a prática e o debate da política no Brasil, bem como os interesses das classes populares, ameaçados pelo retrocesso neoliberal.

 

Links:

1)      Sobre a corrupção no Brasil e o protagonismo do PSDB em relação ao PT e de Aécio em relação à Dilma:

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/09/psdb-partido-mais-sujo-brasil-ranking-justica-eleitoral.html

https://www.facebook.com/733101873387170/photos/a.733135853383772.1073741828.733101873387170/835601819803841/?type=1

http://www.revistaforum.com.br/blog/2013/05/tjmg-confirma-aecio-neves-e-reu-e-sera-julgado-por-desvio-de-r43-bilhoes-da-saude/

2)      Bons motivos para não votar em Aécio Neves:

http://plantaobrasil.com.br/news.asp?nID=80537

3)      Freixo declarou apoio crítico à candidatura de Dilma Rousseff:

http://www.viomundo.com.br/politica/marcelo-freixo-nao-admito-um-retrocesso-voto-em-dilma-segundo-turno.html

 

 

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