Greve Geral na Argentina
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Greve Geral na Argentina

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Greve Geral na Argentina
por Julián Gindin, em 10/04/2014

Hoje se realiza a segunda greve geral contra o kirchnerismo. Enquanto acompanho a greve pelo rádio, escrevo estas linhas pensando nos meus amigos brasileiros que podem ter interesse em conhecer de que se trata, mas não estão familiarizados com a realidade argentina.

As greves geral são a manifestação política por excelência do movimento sindical e constituem, na Argentina, um fenômeno particularmente importante. Na minha terra, o sindicalismo tem um estrutura centralizada (que acompanha a centralização da negociação coletiva e se apoia em mecanismos de controle interno bastante eficientes) e as principais lideranças funcionam com interlocutores “naturais” do governo nacional.  

A maior parte do sindicalismo se identificou e se identifica com o peronismo, e reconhece a Confederación General del Trabajo (CGT) como a central “única”. Mas isso não quer dizer muito, pois no peronismo sempre coexistiram diferentes setores e a CGT frequentemente se dividiu. Muitas das principais greves não foram convocadas por todo o sindicalismo, mas por um setor que funciona como braço confrontador e eventualmente consegue canalizar a insatisfação da classe trabalhadora com o governo.

O governo do Néstor Kirchner, eleito em 2003, aliou-se aos setores da CGT que tinham se enfrentado mais consequentemente ao neoliberalismo, e que tinham ao caminhoneiro Hugo Moyano como liderança. A política sindical do governo foi conservadora, ratificou o status quo sindical, e manteve os recursos de poder do sindicalismo (revigorados pela melhoria dos indicadores sociais e econômicos) intatos.

Elementos de diferentes ordem contribuíram à ruptura entre o kirchnerismo e Moyano. Entre as principais causas se encontram que o governo não aceitou as pressões para incorporar mais sindicalistas nas chapas do kirchnerismo e que a fase relativamente virtuosa do kirchernismo, desde o ponto de vista dos trabalhadores, começou a se esgotar. As tensões dentro do sindicalismo cresceram. Em 2012, não só se dividiu a CGT (que já tinha sofrido uma cisão menor) mas se dividiu também o grupo de sindicatos que acompanhava Moyano desde inícios dos anos ’90. 

Neste contexto, também em 2012, a CGT liderada por Moyano convocou a uma greve geral. Desde o governo de Perón (1946-1955) que não passava tanto tempo sem greves gerais. 

Desde esse momento, atuam na Argentina cinco centrais operárias:

• CGT “oficial”. Reconhecida pelo Ministério de Trabalho, reúne ex moyanistas, ex menemistas, independentes, etc. É um grupo muito heterogêneo, com poucos kirchneristas convencidos. Aqui está a maioria do sindicalismo industrial. O estratégico sindicatos de motoristas de ônibus (um sindicato nacional, rigidamente centralizado) participa desta central operária mas, de qualquer modo, aderiu à greve que se desenvolve hoje. 

• CGT “Azopardo”. Liderada por Moyano, teve que incorporar com destaque aliados de peso que não formaram parte da oposição ao neoliberalismo (como petroleiros e trabalhadores rurais). A principal força está no próprio sindicato de caminhoneiros.

• CGT “Azul e Branca”. Sindicatos reunidos entorno do líder gastronômico Barrionuevo, ex menemista, antikirchnerista desde sempre e tradicionalmente enfrentado com Moyano. 

• CTA Yasky. Poucos sindicatos, reunidos entorno da principal federação de professores públicos do ensino básico. Reúne kirchneristas militantes. 

• CTA Michelli. O outro grande sindicato da ex-CTA única, de funcionários públicos, é antikirchnerista. É o núcleo desta central. 

Nas eleições legislativas de outubro de 2013 o kirchnerismo manteve o peso legislativo, mas perdeu nos principais distritos. Cristina Kirchner não pode ser reeleita e, dentro e fora do kircherismo, todo o sindicalismo pensa nas eleições presidenciais de 2015. Além deste cenário político mais “aberto”, no final de 2013 e nos primeiros meses de 2014 houve importante dificuldades econômicas que o governo enfrentou, entre outras medidas, com uma desvalorização do peso. A inflação cresceu e colocou a disputa salarial na agenda, com uma particularidade: a negociação da reposição salarial das diferentes categorias na Argentina é relativamente centralizada e estreitamente acompanhada (e, eventualmente, não autorizada) pelo governo. Para aumentar a tensão política, os professores públicos da província de Buenos Aires (que concentra pouco menos da metade da população do país) realizaram uma greve histórica, com visibilidade nacional, que forçou ao governador (kirchnerista) a melhorar a sua oferta salarial. 

Neste contexto, a CGT Moyano, a CGT Azul e Branca e a CTA Michelli convocaram a uma paralização geral para hoje. O clasismo sindical, com peso em algumas categorias, aderiu e marca a sua participação com a organização de “piquetes”. Com efeito, os que convocaram à greve confiaram na paralisação do transporte (de todo o transporte) e não organizaram piquetes nem manifestações. O sindicalismo classista, minoritário mas numa fase de crescimento, se diferencia das centrais sindicais por chamar a participar “ativamente” da greve. 

Alguns comentários desde o ponto de vista da análise do movimento sindical:

1) O conservadorismo do sindicalismo argentino. A maioria das lideranças são as mesmas da década de 90, e continuarão sendo as principais lideranças sindicais no próximo governo. Há iniciativas de reforma sindical, até agora sem resultados. As modificações na estrutura sindical são muito lentas e tem efeitos muito limitados. A principal modificação no sindicalismo na última década foi o fortalecimento de todos os sindicatos (anti e pro kirchneristas) a partir da expansão do emprego assalariado registrado.

2) O moyanismo conseguiu, desde a década de 90 e até recentemente, combinar a) uma clara visão política do papel do sindicalismo, b) uma grande capacidade de articular com outros sindicatos e setores sindicais e c) poder de mobilização. Mas, agora, a situação é delicada: o moyanismo ficou debilitado (muitas lideranças abandonaram ao caminhoneiro), e foi obrigado a fazer alianças com outros setores. Além do mais, no âmbito propriamente político, nenhuma liderança com capacidade de ser presidente aceitará a centralidade que Moyano pretende para o movimento sindical no peronismo. (Obs. Moyano sonha com um sindicalista presidente, “como o Lula”, mas a imagem pública dele e de todas as lideranças sindicais é muito ruim).

3) Outros grandes atores da greve (como é o caso de Barrionuevo, mas também de outras lideranças) tem um horizonte relativamente curto: participar do desgaste ao governo de Kirchner e negociar melhor com um novo governo (ou, eventualmente e por enquanto, com os partidos de oposição).

4) É o momento da esquerda classista. Embora lhe seja muito difícil avançar no mundo sindical, tem elementos a favor: a) não estão associados – pelo opinião pública, pela própria base trabalhadora – aos elementos mais criticáveis do sindicalismo argentino (o corporativismo, a corrupção, o verticalismo); b) tem posições importantes conquistadas em algumas categorias (como gráficos, indústria da alimentação, ferroviários); c) a esquerda tem crescido eleitoralmente, com os melhores resultados em muito tempo (atualmente há três deputados federais trotskystas).